“É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase amou, não amou. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor, não é romance. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris ganharia tons de cinza para não menosprezar as outras cores. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar uma alma. Gaste mais horas fazendo do que planejando, vivendo do que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
“A porta está fechada, não adianta bater. E foi tão bom constatar que não me atinge mais. Não me entristece, não me aborrece, não me tira o sono. Passa por mim. Mas, não me atravessa. Foi-se o tempo. E foi-se o tempo faz tempo!
“A solução não cai do céu, mas a minha força vem de lá
“Insensível!”, ele disse. Eu pensei em tampar os ouvidos, fechar os olhos, dormir, morrer, qualquer coisa que fizesse a voz dele sumir. “Eu digo que te amo e é isso que você faz? Você procura outro?” Cada vez gritando mais. Caralho, como eu tenho pavor de gritaria. “Clarice, me responda!”. O olhei. O rosto avermelhado, suor na testa franzida, os lábios molhados, o cabelo arrumado demais. Tive vontade gritar. “Por que você fez isso? Você quer ser prostituta para sempre? Eu já disse que vou te bancar, nós vamos morar juntos. Por que você continua se vendendo?”, achei que ele fosse me sacudir enquanto gritava. “Você é uma piranha mesmo, né? É disso que você gosta. Eu tenho nojo de você! Nojo!” Ok, já posso ir embora?, eu penso. “Você não vai falar nada? Vai ficar com essa cara de idiota?” Não quero falar, porra. Me deixe ir embora - mas eu digo: “Eu queria só uma noite, e você quer uma vida toda.” Ele se levantou. Prendi a língua entre os dentes, me preparando para levar um murro na cara. Ele se agachou a minha frente. Sua mão foi vagarosa até meu queixo, ele acariciou levemente. “Eu te amo, Clarice, fica comigo… Não me machuque assim. Eu te amo.”
Dei um tapa em seu rosto e me levantei. Implorar amor é o fim da picada.